Esses dias eu estava revisitando os processos de criação de alguns projetos e, sinceramente, criatividade é algo doido mesmo.

Numa conversa com um amigo, percebi que sempre caio no mesmo ciclo: o cliente fecha comigo, responde o briefing, eu leio o briefing e, na sequência, me desespero porque não vem ideia nenhuma. Aí saio procurando inspiração desesperadamente. Parece maluquice, mas é exatamente isso que me faz criar coisas tão diferentes umas das outras.

Quando eu digo que criatividade não cai do céu, é porque ela realmente não cai. Nunca aconteceu de eu ter uma ideia de primeira e isso porque, antes de desenhar qualquer coisa, eu preciso sentir o que aquela marca quer transmitir. Uma coisa que eu amo fazer é sair pela rua olhando pra tudo, procurando inspiração em qualquer esquina. E sinceramente, é quase sempre assim que as ideias aparecem.

O caso Por Aí, Bora!

Um exemplo recente foi a marca Por Aí, Bora!, um canal que fala sobre viagens e turismo. A criadora queria algo divertido, estilo cartoon, com aquela pegada anos 80/90. E aí veio só um pensamento: o que eu faço com isso?

Passei o dia inteiro desenhando ideias que não me levavam a lugar nenhum. Cansei, guardei tudo na mochila e fui pra barca voltar pra casa. No caminho, veio o estalo: e se eu usasse um símbolo universal de viagem? Nada de avião (além de datado, nem toda viagem é feita de avião). Eu queria algo presente sempre, em qualquer jornada.

Foi então que, na fila da barca, vi um homem segurando a mochila pela alça. E pronto: é isso!

Cheguei em casa, comecei o primeiro esboço. Já tinha gostado do resultado, mas continuei ajustando até sentir que estava perfeito.

O caso Analiz

Outro caso foi o da Analiz, uma empresa contábil. A criadora comentou comigo que gostaria de uma logo inspirada no brasão da contabilidade, não era uma exigência, mas eu quis trazer esse detalhe de qualquer jeito. E foi aí que quebrei a cabeça: desenhava, apagava, nada fazia sentido.

Cheguei num resultado que já estava me agradando, mas não batia 100%. Continuei tentando até cansar e jogar o caderno de qualquer jeito em cima da mesa. Foi aí que vi o que eu tinha desenhado, só que virado ao contrário. E era exatamente esse o resultado que eu procurava.

O que essas duas histórias têm em comum

Reparei numa coisa contando essas duas histórias: nas duas, a ideia não apareceu enquanto eu estava forçando. Apareceu depois. Na fila da barca, já cansado, sem estar pensando ativamente em "resolver" nada, e no exato momento em que eu desisti e joguei o caderno na longe. Isso não é coincidência, é praticamente uma regra do processo criativo (pelo menos do meu).

A gente cresce com essa ideia de que criatividade é uma explosão, uma lâmpada que acende na sua cabeça do nada. E aí, quando a ideia não aparece na hora, bate o desespero: "será que eu travei?", "será que dessa vez não vai vir?". Só que, com o tempo, eu entendi que esse desespero faz parte do processo, não é um erro dele. É a fase em que você está mergulhando de verdade no problema, testando caminho atrás de caminho, descartando o óbvio pra sobrar só o que tem a essência real. Ninguém vê essa parte no resultado final, mas é ela que garante que a ideia tenha uma base.

Inspiração não é sobre ficar sentado esperando bater na sua porta, é sobre estar em movimento, de olho em tudo, disposto a enxergar potencial em qualquer coisa normalmente ignorada.

E é por isso que eu digo que criatividade não cai do céu: ela é resultado de um processo, e um processo tem etapas desconfortáveis. Tem a etapa de ler o briefing e sentir o peso da responsabilidade. Tem a etapa de rabiscar coisa que não vai pra lugar nenhum. Tem a etapa de cansar, de duvidar, de quase desistir. E só depois de passar por tudo isso é que geralmente vem a etapa boa, a do "é isso!". Se eu pulasse as etapas ruins tentando forçar uma ideia genial de primeira, eu simplesmente não chegaria no resultado que chego hoje.

Então, se você também trabalha com criação, seja design, seja qualquer outra área que exige ideia nova todo dia, talvez o recado seja esse: não tem problema não ter a ideia de cara. Não tem problema desesperar um pouco no meio do caminho. Inspiração está em todo lugar. Ela só precisa de alguém que esteja disposto a parar de procurar com tanta força pra conseguir enxergá-la.